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Enquanto tento escrever um romance imagino uma história de amor. Aumento o volume do som do computador e me deixo levar por Burt Bacharach. Os apaixonados escutam bacharach e sorriem. Como é lívido o amor nas tardes de sábado antes da noite bêbada que vem se aproximando. Como é tênue a felicidade na adolescência, no ardor do rosto, na leveza da palavra dita no ouvido num intervalo da sala de aula.
Mas depois o amor cresce e o mundo vem consumir a ingenuidade dos bem-nascidos. Sim, pois na periferia o amor nasce cedo. Nasce na necessidade da união. Na necessidade de se fazer algo entre a aula de natação que não se tem e o jogo de computador que não se jogou. Na periferia a paixão floresce livre, assim como a desilusão e a tristeza. Assim como a felicidade mais simples e a esperança.
Já no centro do universo, entre os que têm algo na barriga e acúmulo de necessidades na mente, viceja o amor medroso. O amor covarde. O amor egoísta. Pois é o amor, mesmo na periferia, uma união de egoísmos. Uma união de medos. União de esperanças perdidas.
Imagino uma história de amor não como imaginam os poetas de auto-ajuda. Não imagino o amor como um casal que discute a relação. Não enxergo o amor como o medo da solidão ou a fuga dos sonhos de infância. Nada disso para mim se aproxima do amor. O amor em estado puro é o amor à vida.
O amor à vida é antes de tudo o amor à liberdade. É o amor aos sonhos. É o amor que corre atrás de outro amor. É a união de sonhos. União de delírios. É a sabedoria que a solidão só existe para os incrédulos. Que a imaginação, a alma irmã da paixão, mata nossos medos e que se quisermos seremos o que quisermos, mesmo na periferia como no centro. Independente da situação social que influencie as decisões pessoais e interfira na personalidade e nos desejos, nascemos e morremos livres, disse algum dia um bêbado lúcido, que, por sinal, nunca está sozinho em sua infância eterna.
O amor não é somente a história de amor ou sexo entre dois seres humanos. O amor é como a música que flutua solta pelo ar buscando apenas os ouvidos que lhe toquem. É a luz do sol buscando os olhos que a ilumine melhor. O amor é o vento procurando a pele que o refresque melhor. É o cheiro de relva úmida nos nariz que a respire melhor. O amor é a palavra aconchegada na boca que a expresse melhor.
Independente do leitor, um bom romance sempre é uma história de amor.
criado por mutante.voy
23:04:52