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Queria escrever um romance que mantivesse o equilíbrio entre o racional e o emocional. Que a história tivesse a simplicidade das grandes histórias, dos amores perdidos, das perdas sofridas, das desgraças alheias, das pequenas comédias diárias. Mas que ao mesmo tempo construísse um imaginário na mente do leitor que nascesse da razão intuitiva do autor. Que o autor não descambasse para a poesia de auto-ajuda ou o a literatura esotérica, pragas tão comuns na literatura contemporânea.
Quando falo em emocional, falo em entrega. Falo como dizia Tim Maia. Não se pode escrever sobre dor de cotovelo sem nunca ter sofrido um revés amoroso. O autor tem que estar entregue junto na embalagem do livro. Sua alma, que não precisa necessariamente sua, pode ser roubada, mas que será a sua vivendo na pele de outro seus próprios dilemas. Ou será o autor vivendo dilemas que não os dele, mas carregando dentro desses tramas os seus próprios medos e desejos mais secretos. Será um ator o autor. Mas um autor que constrói dentro de seu próprio espectro as vidas interiores de seus personagens. Dentro dessa incorporação o autor se entrega como se entrega o bom ator em um palco ou atrás das telas. Além da personagem ou da trama, está ali o espelho da alma do intérprete. Mas só que essa alma não deve ser completa. Deve ser um pedaço. Um detalhe. Mais que uma entrega, é uma troca. O autor entrega sua alma para receber dos leitores seus sonhos e capturar seus desejos mais íntimos. Essa simbiose se materializa no ser híbrido chamado livro.
Porém tudo deve ser entrelaçado pela simplicidade no vocabulário e na beleza da forma. Tal qual música, poucas notas são necessárias para que se crie a beleza plástica. Assim como as cores básicas se misturam e formam as mais variadas imagens na mente de artistas livres de espírito. A beleza da forma nasce na subjetividade. No delírio da contemplação dos objetos. Na racionalização dos sentimentos mais primários e humanos. Já a simplicidade do vocabulário se adquire ao saber o autor usar da complexidade da língua para dizer em poucas palavras o que um intelectual, que me desculpem os próprios, inclusive posso ser um deles, mas são uns chatos, levaria aludas e laudas de nosso santo saco para descrever em minúcias sapienciais e estúpidas. Não prego aqui uma diminuição do estudo, da leitura ou da linguagem. Não! Mas existe muito mais complexidade em ser direto e simples e ao mesmo tempo belo e único. A imaginação é uma ciência que se pratica pelo desligamento de nosso aprendizado adquirido depois do nascimento aliado ao próprio conhecimento conquistado pela vivência e convivência.
Paradoxal?
Sim. E não. Como a própria resposta que acabo de fornecer para minhas próprias dúvidas. Como o autor sentado em um banco de praça fumando um cigarro e observando a vida alheia passando pela sua frente e em certo momento enxergar ele mesmo passando. Ele apaga o cigarro e ele mesmo acende outro na sua frente. O espelho de sua alma e de seu mundo refletidos nos espelhos dos olhos de seus leitores. Todos unidos pelo estranhamento da existência. Pelo prazer da vida. Por medos seculares. Unidos pela imaginação transposta em pequenos caracteres que dançam e tocam a música inaudita da literatura.
A música que para escutar basta apenas ficarmos em silêncio.
E sorrirmos.
criado por mutante.voy
21:40:42