Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.

Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.
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Terra Blog

18.09.06

Enquanto Tento Escrever um Romance

 

Enquanto tento escrever um romance vou trabalhando como posso e arrancando dinheiro de acordo com as oportunidades. Tento encontrar uma brecha de tempo, como agora, e escrever algumas linhas para satisfazer minha necessidade de ver as letrinhas se juntando na tela do computador, que seja. Tento escrever nos intervalos em que meu filho dorme e me deixa sozinho. Nos poucos momentos que a mulher não me interrompe para conversar sobre qualquer assunto ou resolver problemas da casa.

É.

Tentar escrever sempre foi assim. Tem que se ter o tempo parado. O olhar paralisado. O som perdido no fundo do ouvido. O silêncio inaudito dos pensamentos perdidos e desconexos. O momento de deslumbre da história e das palavras formando parágrafos e dos parágrafos formando textos e dos textos formando a história que surgiu inacessível em algum momento de descuido.

Enquanto tento escrever um romance vou escrevendo contos perdidos e sem nenhuma ligação uns com os outros. Não tenho essa dificuldade que muitos dizem existir, ou fingem existir só para dizer que sofrem ao escrever. Eu não sofro para escrever. Eu não sofro nem para viver. Na verdade, quando sofro mesmo é que me sinto vivo. E não venham com "mas tu não sabe o que é sofrer". Pois não é de passar fome ou de doença que estou falando. Aqueles que enxergam a dor somente pelo lado material também costumam valorizar somente o material. A alegria nasce nos lugares mais sofridos do mundo. A dor e o sofrimento são necessidades da classe média entediada. Não é tampouco desse sofrimento que falo. Falo do infalável. Da dor que nasce da respiração. Duma dor que ao mesmo tempo que dói, alimenta. Uma dor perdida nos tempos e nas almas e escondida nos poros de todos os seres humanos, mesmo os mais racionais ou pragmáticos. A dor solitária do palhaço no final da piada. A felicidade indescritível no final da piada. O deboche. A consciência da vida plena no momento. A felicidade momentânea que alimenta a dor. A dor que alimenta a vida.

Enquanto tento escrever um romance que se constrói em minha mente, e não é só um, são vários, são dezenas, são milhares, tantos quantos eu pudesse um dia ter sonhado, vou tentando viver do lado de fora, Vou tentando ser sociável para que não esqueçam de mim. Vou tentando ser um pouco menos eu para que os outros possam me suportar enquanto o eu verdadeiro sobrevive sorrateiro nas penumbras da literatura. Enquanto vou respirando pelas beiradas de minha ficção. Enquanto acelero sozinho e sou feliz nas madrugadas que não existem mais.

Não.

Jamais estarei contente. 

Talvez, e só talvez, por isso, eu saiba que enquanto tento escrever um romance sou feliz na expectativa do desconhecido. A diversão não está na velocidade da reta.

Ainda bem.

 

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 12:07:53
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