Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.

Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.
<  Março 2007  >
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21.09.06

Aonde?

 

Onde seria o cenário principal de meu romance? Poderia estar pensando em personagens. Mas prefiro me prender no local das ações. Para mim seria, e é, bem mais fácil escrever uma história que se passe em Porto Alegre. São mais de trinta anos na mesma cidade E, mesmo gostando dessa cidade com todas as suas imperfeições, mesmo gostando das imperfeições, não a conheço de todo. São tantos os cantos, as ruas, as praças, até mesmo os bairros que desconheço, que poderia ficar mais trintas anos desvendando a cidade.

Ou localizaria a história em uma cidade fictícia, mas não de interior. É, e eu admito publicamente, difícil para mim escrever uma história que se passe numa cidade pequena ou no meio rural. Talvez um dia consiga, mas não agora. Como também não é compreensível que recaia em escrever sobre as lidas do campo como dizem cá nos pagos. Seria estúpido e mesmo falso sair escrevendo sobre um pampa glorioso que só existe nas mentes obtusas e parnasianas de certos grupelhos, cada vez maiores, infelizmente, intelectuais que defendem as tradições que se existiram algum dia jamais tiveram a magnitude que tais intelectuais apregoam.

Riscando o pampa imaginário, me fogem também as cidades ditas européias do Rio Grande. Pois aí se encontra outra espécie de romance muito querido aos olhos de eurocentristas gaúchos. Muitos escritores que encontram seus nichos, mesmo no sentido publicitário da palavra, em certos grupos étnicos de descendentes de imigrantes europeus. Não. Também eu tenho em minhas entranhas correndo sangue de várias origens, e mesmo respeitando cada uma delas, não me classificaria especifiamente dentro de nenhuma.

Como também, se escrevesse uma história, digamos, porto-alegrense, não me perderia nos estereótipos da cidade em que nasci. Os porto-alegrenses natos se diferenciam dos vindos de outras cidades, sendo muito comum perguntar-se em Porto Alegre de onde veio tal pessoa, justo que sendo uma cidade nova, pouco mais de duzentos anos, não ter uma casta nativa muito específica. Mesmo para os brasileiros de outros estados soa estranho o sotaque porto-alegrense, justo que, diferente do sotaque gaúcho cantado e folclorizado pelo resto do Brasil, o sotaque porto-alegrense é mais arrastado, as vogais mais longas e ao mesmo tempo as frases e as palavras são esquartejadas com muito mais frequência.

Bom, antes que ue me perca na linguagem do local, uma cidade fictícia pode se enquadrar numa história realista ou numa história fantástica. ambos os termos, realista e fantástica, são abominados por grande parte dos escritores. Em verdade por se tratarem em grande parte as histórias realistas de transcrições de egocentrismos exacerbados escritas na primeira pessoa. E as histórias fantásticas em metaforizações da vida real em mundo supostamente absurdo e engraçadinho. O engraçadinho faz parte da cultura contemporânea, logo, já está incluído na mente do leitor quando ele lê uma história classificada como fantástica. O autor, em sua nobreza, diria que tudo não passa de nonsense.

Ou, como pode acontecer, e inevitavelmente acontece, o leitor dramatiza demais as histórias, tanto as realistas quanto as fantásticas, e dá a elas proporções que não possuem. Daí para virarem objetos de culto, e portanto de auto-ajuda, vai um passo do tamanho que existe entre a cama e o chão. Com a diferença que neste caso quem dá o passo é um sonâmbulo.

Talvez meu romance se localize quase que totalmente em Porto Alegre.

Talvez.

Afinal, ainda estou tentando escrever.

 

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 16:22:45
1 comentário
  • Em 11.10.06, às 00:54:53,
  • nana disse :
é bom começar a decidir o que tu não quer, pra depois decidir o que quer; opção demais é contraproducente.
abraço duma porto-alegrense nata, e boa sorte com teu romance.
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