Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.

Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.
<  Novembro 2009  >
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Terra Blog

21.09.06

Aonde?

 

Onde seria o cenário principal de meu romance? Poderia estar pensando em personagens. Mas prefiro me prender no local das ações. Para mim seria, e é, bem mais fácil escrever uma história que se passe em Porto Alegre. São mais de trinta anos na mesma cidade E, mesmo gostando dessa cidade com todas as suas imperfeições, mesmo gostando das imperfeições, não a conheço de todo. São tantos os cantos, as ruas, as praças, até mesmo os bairros que desconheço, que poderia ficar mais trintas anos desvendando a cidade.

Ou localizaria a história em uma cidade fictícia, mas não de interior. É, e eu admito publicamente, difícil para mim escrever uma história que se passe numa cidade pequena ou no meio rural. Talvez um dia consiga, mas não agora. Como também não é compreensível que recaia em escrever sobre as lidas do campo como dizem cá nos pagos. Seria estúpido e mesmo falso sair escrevendo sobre um pampa glorioso que só existe nas mentes obtusas e parnasianas de certos grupelhos, cada vez maiores, infelizmente, intelectuais que defendem as tradições que se existiram algum dia jamais tiveram a magnitude que tais intelectuais apregoam.

Riscando o pampa imaginário, me fogem também as cidades ditas européias do Rio Grande. Pois aí se encontra outra espécie de romance muito querido aos olhos de eurocentristas gaúchos. Muitos escritores que encontram seus nichos, mesmo no sentido publicitário da palavra, em certos grupos étnicos de descendentes de imigrantes europeus. Não. Também eu tenho em minhas entranhas correndo sangue de várias origens, e mesmo respeitando cada uma delas, não me classificaria especifiamente dentro de nenhuma.

Como também, se escrevesse uma história, digamos, porto-alegrense, não me perderia nos estereótipos da cidade em que nasci. Os porto-alegrenses natos se diferenciam dos vindos de outras cidades, sendo muito comum perguntar-se em Porto Alegre de onde veio tal pessoa, justo que sendo uma cidade nova, pouco mais de duzentos anos, não ter uma casta nativa muito específica. Mesmo para os brasileiros de outros estados soa estranho o sotaque porto-alegrense, justo que, diferente do sotaque gaúcho cantado e folclorizado pelo resto do Brasil, o sotaque porto-alegrense é mais arrastado, as vogais mais longas e ao mesmo tempo as frases e as palavras são esquartejadas com muito mais frequência.

Bom, antes que ue me perca na linguagem do local, uma cidade fictícia pode se enquadrar numa história realista ou numa história fantástica. ambos os termos, realista e fantástica, são abominados por grande parte dos escritores. Em verdade por se tratarem em grande parte as histórias realistas de transcrições de egocentrismos exacerbados escritas na primeira pessoa. E as histórias fantásticas em metaforizações da vida real em mundo supostamente absurdo e engraçadinho. O engraçadinho faz parte da cultura contemporânea, logo, já está incluído na mente do leitor quando ele lê uma história classificada como fantástica. O autor, em sua nobreza, diria que tudo não passa de nonsense.

Ou, como pode acontecer, e inevitavelmente acontece, o leitor dramatiza demais as histórias, tanto as realistas quanto as fantásticas, e dá a elas proporções que não possuem. Daí para virarem objetos de culto, e portanto de auto-ajuda, vai um passo do tamanho que existe entre a cama e o chão. Com a diferença que neste caso quem dá o passo é um sonâmbulo.

Talvez meu romance se localize quase que totalmente em Porto Alegre.

Talvez.

Afinal, ainda estou tentando escrever.

 

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 16:22:45

19.09.06

O Vício

 

Quem escreve como profissão, digo, quem é pago para escrever, talvez conte que escrever é um processo. Que o escritor precisa se organizar, preparar o texto, fazer um organograma da história a ser contada, estabelecer personagens, lugares, etc. Pode ser que tudo isso daí funcione. Mas não comigo.

Escrever para mim é uma necessidade fisiológica. É como tomar café todos os dias. É como o cigarro do fumante. Ficar preso pelo tempo e impedido de escrever é como ser um fumante num enorme edifício público onde é proibido fumar. A ansiedade toma conta do corpo. Então quando surge a oportunidade, ou mesmo quando crio a oportunidade do nada, eu escrevo. E daí a escrita vem como a primeira cerveja gelada depois de um dia de trabalho no sol, caminhando, suado e ela abre todos os poros e o corpo é tomado por uma corrente elétrica que vai até o dedão do pé.

O elemento químico desse vício vai contaminando tudo na minha volta. Logo estou escrevendo sem escrever. Estou falando sem parar para esquecer que tenho que escrever. Tenho que controlar as histórias para que elas não fujam. Para que elas não se diluam na vida cotidiana e a vida se confunda com a ficção. Alguma química cerebral me impede de controlar o impulso de contar histórias. Então destrambelho. E falo quando não tenho que trabalhar sob pressão, o que, pra mim, é o melhor trabalho de todos.

Mas, ao mesmo tempo, o tempo de escrever quando surge é lento. Ele é feito de caminhadas sem rumo. De desligamento do mundo exterior. De horas de contemplação alienada das paisagens. De andar olhando pro alto dos prédios. De sair de carro dirigindo e não prestar atenção para onde se vai. E, agora, de ficar sozinho com o filho e não falar coisa com coisa com ele, afinal ele entende mais do que eu estou falando do que eu entendo ele com seus quatro meses e meio de idade.

O tempo de escrever contos já é demasiado alienado, entrecortado por sessões de música alta nos fones de ouvido. De sono cancelado. De fome espreitando. O tempo de escrever um romance, não sei, talvez seja o tempo da vida. Da vida que ainda não tenho completa, pois afinal tenho contas e gosto do conforto e admiro a preguiça. O tempo do romance talvez seja o tempo da perdição. O tempo da liberdade. Talvez seja, para mim, o resto da vida, que espero seja o suficiente para que eu possa escrever e viver, pois a escrita não existe sem a vivência. Ou, perdoem-me os estudiosos, existe. Mas que deve ser um tédio, isso deve.

 

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 17:44:47

18.09.06

Enquanto Tento Escrever um Romance

 

Enquanto tento escrever um romance vou trabalhando como posso e arrancando dinheiro de acordo com as oportunidades. Tento encontrar uma brecha de tempo, como agora, e escrever algumas linhas para satisfazer minha necessidade de ver as letrinhas se juntando na tela do computador, que seja. Tento escrever nos intervalos em que meu filho dorme e me deixa sozinho. Nos poucos momentos que a mulher não me interrompe para conversar sobre qualquer assunto ou resolver problemas da casa.

É.

Tentar escrever sempre foi assim. Tem que se ter o tempo parado. O olhar paralisado. O som perdido no fundo do ouvido. O silêncio inaudito dos pensamentos perdidos e desconexos. O momento de deslumbre da história e das palavras formando parágrafos e dos parágrafos formando textos e dos textos formando a história que surgiu inacessível em algum momento de descuido.

Enquanto tento escrever um romance vou escrevendo contos perdidos e sem nenhuma ligação uns com os outros. Não tenho essa dificuldade que muitos dizem existir, ou fingem existir só para dizer que sofrem ao escrever. Eu não sofro para escrever. Eu não sofro nem para viver. Na verdade, quando sofro mesmo é que me sinto vivo. E não venham com "mas tu não sabe o que é sofrer". Pois não é de passar fome ou de doença que estou falando. Aqueles que enxergam a dor somente pelo lado material também costumam valorizar somente o material. A alegria nasce nos lugares mais sofridos do mundo. A dor e o sofrimento são necessidades da classe média entediada. Não é tampouco desse sofrimento que falo. Falo do infalável. Da dor que nasce da respiração. Duma dor que ao mesmo tempo que dói, alimenta. Uma dor perdida nos tempos e nas almas e escondida nos poros de todos os seres humanos, mesmo os mais racionais ou pragmáticos. A dor solitária do palhaço no final da piada. A felicidade indescritível no final da piada. O deboche. A consciência da vida plena no momento. A felicidade momentânea que alimenta a dor. A dor que alimenta a vida.

Enquanto tento escrever um romance que se constrói em minha mente, e não é só um, são vários, são dezenas, são milhares, tantos quantos eu pudesse um dia ter sonhado, vou tentando viver do lado de fora, Vou tentando ser sociável para que não esqueçam de mim. Vou tentando ser um pouco menos eu para que os outros possam me suportar enquanto o eu verdadeiro sobrevive sorrateiro nas penumbras da literatura. Enquanto vou respirando pelas beiradas de minha ficção. Enquanto acelero sozinho e sou feliz nas madrugadas que não existem mais.

Não.

Jamais estarei contente. 

Talvez, e só talvez, por isso, eu saiba que enquanto tento escrever um romance sou feliz na expectativa do desconhecido. A diversão não está na velocidade da reta.

Ainda bem.

 

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 12:07:53