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Um argumento nasce para mim basicamente do nada. Mas esse nada é tudo. As associações de idéias vão se formando ao longo dos anos em minha rede de neurônios até que um último estalo faz com que todas transbordem juntas e seja impossível controlar o desenrolar da história que escreverei.
Poderia dizer que funciona como a fermentação da cerveja. Ou como o envelhecimento do vinho no barril. Algumas vezes acontece assim. Mas na maioria das vezes, e quando eu realmente me sinto livre e pleno acontece como a construção de uma barragem.
Um romance que valha a pena ser escrito, lido e relido funciona assim mesmo. Ao longo do tempo a barragem é construída, o rio vai sendo nivelado e depois fecham-se e abrem-se as comportas de acordo com a necessidade de geração de energia. O romance é então o lago que se forma e que por muito e muito tempo vai iluminar centenas, milhares de casas. Quanto ao argumento do romance que escrevo agora, a barragem já foi construída e agora resta deixar que o lago se forme.
Admito que não consigo transpor esta idéia de romance em algum esquema compreensível para outras pessoas. Algumas vezes já tentei e me parece bem mais plausível, para meus interesses em publicá-lo e para a compreensão de meu primeiro público-alvo, o editor, que sua primeira leitura seja feita apensa depois de pronto e devidamente revisado, visto a desordem mental que me toma quando escrevo destrambelhadamente como é o costume.
Mesmo tentei participar de concurso e óbvio que foi um desastre. Não tenho a mínima condição de ordenar o argumento como se fosse um organograma para um bando de burocratas literários. Aliás, considero que basta ler o que alguém escreve para saber se o tal tem condições de ser um bom escritor. Como fazia um antigo olheiro de futebol. Jogava a bola rente ao chão e gritava “cabeceia!” Se o sujeitinho se jogasse no chão, pode largar, não joga nada. E, pra ser bem sincero, tem muita gente cabeceando no chão por aí.
Queria eu escrever um romance como A Rua das Ilusões Perdidas, de Steinbeck, ou um Enquanto Agonizo, de Faulkner. Não gosto de escritores em particular, mas de livros. Tanto que para mim um escritor que escreve um livro que eu releia várias vezes e escreva cem porcarias, eu vou considerá-lo sempre pelo livro bom. Tanto que nem gosto de Hemingway, acho enfadonho e exibicionista. Mas O Velho e o Mar é um clássico, claro. Assim como não tenho medo de dizer que Fausto Wolff funciona como Lou Reed e Bukowski funciona como Ramones. Ambos praticamente escrevem sempre a mesma história só que, como Lou ou os Ramones, fazem essa repetição com extrema imaginação e competência.
Terminando, e nem estou mais falando de argumento e sim de referência,s que também acabam influenciando a história, adoro best sellers desconsiderados péla intectualidade tacanha. Livros rápidos e rasteiro como O Veredito, de Barry Reed, ou ou qualquer um do Elmore Leonard. Ou livros de piratas. Sempre eles.
Um pirata deve ser divertido. Não ter respeito por nada e nem por ninguém. Um pirata não tem regras. Um bom romance é como um bom pirata. Um bom romance começa como a empreitada de um navio pirata. Navega solitário e captura o que aparecer pela sua frente. Um bom romance navega pelas lendas alheias. Um grande romance é um ladrão por natureza. Segue apenas o rumo do horizonte e não segue curso nenhum.
Nem mesmo o curso de seu autor.