Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.

Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.
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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2006, 26

26.09.06

O Ambiente de Trabalho

 

Antigamente alguns poucos homens tinham a habilidade e os meios para escrever e, dentre estes, menos ainda eram os que escreviam ficção. Obviamente o ato de escrever era restrito a certos ambientes e muitas vezes, ao contrário do que se pode pensar hoje, os escribas eram relegados a castas inferiores da sociedade. A escassez de meios tanto nos salvou de que maus escritores tivessem oportunidade como também nos privou de conhecer histórias de mentes imaginativas que não possuiam os meios ou a habilidade para transpor a história em palavra escrita.

Ainda sem o advento da tipografia, e mesmo sem essa, quase nada foi alterado até a popularização da máquina de escrever, autores como Maquiavel, posicionavam-se de pé para escrever em um móvel adequado com seus bicos de penas, tinta e outros apetrechos, alguns dos quais utilizou Sade, por exemplo. Se o ambiente quase sempre se restringia a escrever em uma sala arejada, pela manhã, de pé ou sentado, ou à noite, sob a luz de velas, o combustível do escritor foi sendo alterado com o tempo. Balzac escrevia abaixo de litros de café. Baudelaire e muitos de seus contemporâneos, dos quais destaco Teophile Gaultier, alimentados por muito vinho e haxixe. Que, óbvio, tais substâncias exerceram influência na escrita, isso exerceram. Mas como afirmou certa vez o próprio Baudelaire, “um idiota drogado é apenas mais um idiota”, de tal maneira que não é a substância que faz a história, mas sim o escritor que liberta partes de sua mente aprisionadas pela consciência opressiva.

Já no século 20 o alcoolismo transformou-se no lugar comum de muitos escritores. Tanto que julgaram muitos bêbado acharem que bastava encher a cara para ser um gênio. Óbvio que não. Mas mesmo assim muitos cachaceiros nos premiaram com suas obras escritas sob efeitos de bebedeiras, tais como Faulkner, que também escrevia alucinadamente roteiros para Hollywood, Simenon, que se trancava no quarto, sozinho, junto com algumas garrafas de vinho, e Jack London, que li só um livro mas já foi o suficiente para incluí-lo nessa pequena lista. Muitos outros encheram o saco com suas bebedeiras, mas o melhor é nem citá-los.

Mario Puzo é o escritor que em seus relatos mais se aproxima do que vivo nos dias de hoje enquanto tento escrever um romance. Diz ele que escrevia com o baruilho das crianças por perto, a mulher incomodando com os problemas domésticos e os pensamentos sempre divididos em escrever e resolver seus problemas financeiros. Mais adiante, ele revela que seus momentos de inspiração vinham entre as gondôlas do supermercado quando acompanha sua mulher nas compras. Ou então quando ia apostar nas corridas de cavalos.

Eu, cá no meu canto, necessito muitas vezes de café forte e com açúcar, outras vezes, de um cerveja gelada, um gim, uma cuba ou mesmo vinho tinto seco. Nada que me embebede, pois bêbado me transformo em poeta e certamente não escreverei um romance. Também o silêncio muitas vezes se faz necessário, mas o barulho de televisão em algum canal que passe filmes de péssima qualidade ou escutando um tipo de música adequeado ao texto que pretendo fazer, também me satisfazem. Se no conto posso delirar escutando Black Sabbath ou Beethoven, já no romance que tento escrever estou me resguardando de sons mais violentos e aprendendo a escutar Dvorak, T. Rex ou mesmo, acredite, George Harrison. Não que esteja virando um erudito ou um riponga. Vez em quando me alieno e coloco várias músicas aceleradas para divagar entre um parágrafo e outro. A música é uma grande aliada em minhas divagações mentais para compor uma história. Assim como caminhar sem compromisso. Ou dirigir pelas ruas vazias na madrugada.

Já as interrupções para conversações me atrapalham e muito. Não muitas vezes sou indócil e até mesmo agressivo com os que convivem no mesmo ambiente onde estou escrevendo. Outras vezes sou mesmo é alienado ao ponto de deixar extremamente irritados os circundantes com minha falta de atenção.

O calor extremo ou o frio também são interferências externas que me incomodam, mas o bom mesmo é não ter uma geladeira farta ou uma cama confortável por perto. A preguiça e a sobra de tempo podem ser inimigas do escritor. Preciso ter o tempo exíguo para que não o perca em devaneios exagerados. Mas se tiver esse tempo de sobra, devo criar meu próprio tempo. Sem agendas. Sem horários. Apenas possuir o comando de minhas ações.

Apenas deixar que o romance domine meu tempo e que as outras tarefas sejam mecânicas.

Apenas viver outras vidas fora de meu casco resignado.

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 13:11:37