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Quem escreve como profissão, digo, quem é pago para escrever, talvez conte que escrever é um processo. Que o escritor precisa se organizar, preparar o texto, fazer um organograma da história a ser contada, estabelecer personagens, lugares, etc. Pode ser que tudo isso daí funcione. Mas não comigo.
Escrever para mim é uma necessidade fisiológica. É como tomar café todos os dias. É como o cigarro do fumante. Ficar preso pelo tempo e impedido de escrever é como ser um fumante num enorme edifício público onde é proibido fumar. A ansiedade toma conta do corpo. Então quando surge a oportunidade, ou mesmo quando crio a oportunidade do nada, eu escrevo. E daí a escrita vem como a primeira cerveja gelada depois de um dia de trabalho no sol, caminhando, suado e ela abre todos os poros e o corpo é tomado por uma corrente elétrica que vai até o dedão do pé.
O elemento químico desse vício vai contaminando tudo na minha volta. Logo estou escrevendo sem escrever. Estou falando sem parar para esquecer que tenho que escrever. Tenho que controlar as histórias para que elas não fujam. Para que elas não se diluam na vida cotidiana e a vida se confunda com a ficção. Alguma química cerebral me impede de controlar o impulso de contar histórias. Então destrambelho. E falo quando não tenho que trabalhar sob pressão, o que, pra mim, é o melhor trabalho de todos.
Mas, ao mesmo tempo, o tempo de escrever quando surge é lento. Ele é feito de caminhadas sem rumo. De desligamento do mundo exterior. De horas de contemplação alienada das paisagens. De andar olhando pro alto dos prédios. De sair de carro dirigindo e não prestar atenção para onde se vai. E, agora, de ficar sozinho com o filho e não falar coisa com coisa com ele, afinal ele entende mais do que eu estou falando do que eu entendo ele com seus quatro meses e meio de idade.
O tempo de escrever contos já é demasiado alienado, entrecortado por sessões de música alta nos fones de ouvido. De sono cancelado. De fome espreitando. O tempo de escrever um romance, não sei, talvez seja o tempo da vida. Da vida que ainda não tenho completa, pois afinal tenho contas e gosto do conforto e admiro a preguiça. O tempo do romance talvez seja o tempo da perdição. O tempo da liberdade. Talvez seja, para mim, o resto da vida, que espero seja o suficiente para que eu possa escrever e viver, pois a escrita não existe sem a vivência. Ou, perdoem-me os estudiosos, existe. Mas que deve ser um tédio, isso deve.