Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.

Enquanto Tento Escrever Um Romance

Delírios literários do escritor Marcelo Benvenutti enquanto tenta escrever um romance, publicá-lo por uma grande editora e ter milhares de leitores.
<  Setembro 2006  >
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Arquivo de: Setembro 2006

28.09.06

Argumento

 
Um argumento nasce para mim basicamente do nada. Mas esse nada é tudo. As associações de idéias vão se formando ao longo dos anos em minha rede de neurônios até que um último estalo faz com que todas transbordem juntas e seja impossível controlar o desenrolar da história que escreverei.

Poderia dizer que funciona como a fermentação da cerveja. Ou como o envelhecimento do vinho no barril. Algumas vezes acontece assim. Mas na maioria das vezes, e quando eu realmente me sinto livre e pleno acontece como a construção de uma barragem.

Um romance que valha a pena ser escrito, lido e relido funciona assim mesmo. Ao longo do tempo a barragem é construída, o rio vai sendo nivelado e depois fecham-se e abrem-se as comportas de acordo com a necessidade de geração de energia. O romance é então o lago que se forma e que por muito e muito tempo vai iluminar centenas, milhares de casas. Quanto ao argumento do romance que escrevo agora, a barragem já foi construída e agora resta deixar que o lago se forme.

Admito que não consigo transpor esta idéia de romance em algum esquema compreensível para outras pessoas. Algumas vezes já tentei e me parece bem mais plausível, para meus interesses em publicá-lo e para a compreensão de meu primeiro público-alvo, o editor, que sua primeira leitura seja feita apensa depois de pronto e devidamente revisado, visto a desordem mental que me toma quando escrevo destrambelhadamente como é o costume.

Mesmo tentei participar de concurso e óbvio que foi um desastre. Não tenho a mínima condição de ordenar o argumento como se fosse um organograma para um bando de burocratas literários. Aliás, considero que basta ler o que alguém escreve para saber se o tal tem condições de ser um bom escritor. Como fazia um antigo olheiro de futebol. Jogava a bola rente ao chão e gritava “cabeceia!” Se o sujeitinho se jogasse no chão, pode largar, não joga nada. E, pra ser bem sincero, tem muita gente cabeceando no chão por aí.

Queria eu escrever um romance como A Rua das Ilusões Perdidas, de Steinbeck, ou um Enquanto Agonizo, de Faulkner. Não gosto de escritores em particular, mas de livros. Tanto que para mim um escritor que escreve um livro que eu releia várias vezes e escreva cem porcarias, eu vou considerá-lo sempre pelo livro bom. Tanto que nem gosto de Hemingway, acho enfadonho e exibicionista. Mas O Velho e o Mar é um clássico, claro. Assim como não tenho medo de dizer que Fausto Wolff funciona como Lou Reed e Bukowski funciona como Ramones. Ambos praticamente escrevem sempre a mesma história só que, como Lou ou os Ramones, fazem essa repetição com extrema imaginação e competência.

Terminando, e nem estou mais falando de argumento e sim de referência,s que também acabam influenciando a história, adoro best sellers desconsiderados péla intectualidade tacanha. Livros rápidos e rasteiro como O Veredito, de Barry Reed, ou ou qualquer um do Elmore Leonard. Ou livros de piratas. Sempre eles.

Um pirata deve ser divertido. Não ter respeito por nada e nem por ninguém. Um pirata não tem regras. Um bom romance é como um bom pirata. Um bom romance começa como a empreitada de um navio pirata. Navega solitário e captura o que aparecer pela sua frente. Um bom romance navega pelas lendas alheias. Um grande romance é um ladrão por natureza. Segue apenas o rumo do horizonte e não segue curso nenhum.

Nem mesmo o curso de seu autor.

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 19:43:07

26.09.06

O Ambiente de Trabalho

 

Antigamente alguns poucos homens tinham a habilidade e os meios para escrever e, dentre estes, menos ainda eram os que escreviam ficção. Obviamente o ato de escrever era restrito a certos ambientes e muitas vezes, ao contrário do que se pode pensar hoje, os escribas eram relegados a castas inferiores da sociedade. A escassez de meios tanto nos salvou de que maus escritores tivessem oportunidade como também nos privou de conhecer histórias de mentes imaginativas que não possuiam os meios ou a habilidade para transpor a história em palavra escrita.

Ainda sem o advento da tipografia, e mesmo sem essa, quase nada foi alterado até a popularização da máquina de escrever, autores como Maquiavel, posicionavam-se de pé para escrever em um móvel adequado com seus bicos de penas, tinta e outros apetrechos, alguns dos quais utilizou Sade, por exemplo. Se o ambiente quase sempre se restringia a escrever em uma sala arejada, pela manhã, de pé ou sentado, ou à noite, sob a luz de velas, o combustível do escritor foi sendo alterado com o tempo. Balzac escrevia abaixo de litros de café. Baudelaire e muitos de seus contemporâneos, dos quais destaco Teophile Gaultier, alimentados por muito vinho e haxixe. Que, óbvio, tais substâncias exerceram influência na escrita, isso exerceram. Mas como afirmou certa vez o próprio Baudelaire, “um idiota drogado é apenas mais um idiota”, de tal maneira que não é a substância que faz a história, mas sim o escritor que liberta partes de sua mente aprisionadas pela consciência opressiva.

Já no século 20 o alcoolismo transformou-se no lugar comum de muitos escritores. Tanto que julgaram muitos bêbado acharem que bastava encher a cara para ser um gênio. Óbvio que não. Mas mesmo assim muitos cachaceiros nos premiaram com suas obras escritas sob efeitos de bebedeiras, tais como Faulkner, que também escrevia alucinadamente roteiros para Hollywood, Simenon, que se trancava no quarto, sozinho, junto com algumas garrafas de vinho, e Jack London, que li só um livro mas já foi o suficiente para incluí-lo nessa pequena lista. Muitos outros encheram o saco com suas bebedeiras, mas o melhor é nem citá-los.

Mario Puzo é o escritor que em seus relatos mais se aproxima do que vivo nos dias de hoje enquanto tento escrever um romance. Diz ele que escrevia com o baruilho das crianças por perto, a mulher incomodando com os problemas domésticos e os pensamentos sempre divididos em escrever e resolver seus problemas financeiros. Mais adiante, ele revela que seus momentos de inspiração vinham entre as gondôlas do supermercado quando acompanha sua mulher nas compras. Ou então quando ia apostar nas corridas de cavalos.

Eu, cá no meu canto, necessito muitas vezes de café forte e com açúcar, outras vezes, de um cerveja gelada, um gim, uma cuba ou mesmo vinho tinto seco. Nada que me embebede, pois bêbado me transformo em poeta e certamente não escreverei um romance. Também o silêncio muitas vezes se faz necessário, mas o barulho de televisão em algum canal que passe filmes de péssima qualidade ou escutando um tipo de música adequeado ao texto que pretendo fazer, também me satisfazem. Se no conto posso delirar escutando Black Sabbath ou Beethoven, já no romance que tento escrever estou me resguardando de sons mais violentos e aprendendo a escutar Dvorak, T. Rex ou mesmo, acredite, George Harrison. Não que esteja virando um erudito ou um riponga. Vez em quando me alieno e coloco várias músicas aceleradas para divagar entre um parágrafo e outro. A música é uma grande aliada em minhas divagações mentais para compor uma história. Assim como caminhar sem compromisso. Ou dirigir pelas ruas vazias na madrugada.

Já as interrupções para conversações me atrapalham e muito. Não muitas vezes sou indócil e até mesmo agressivo com os que convivem no mesmo ambiente onde estou escrevendo. Outras vezes sou mesmo é alienado ao ponto de deixar extremamente irritados os circundantes com minha falta de atenção.

O calor extremo ou o frio também são interferências externas que me incomodam, mas o bom mesmo é não ter uma geladeira farta ou uma cama confortável por perto. A preguiça e a sobra de tempo podem ser inimigas do escritor. Preciso ter o tempo exíguo para que não o perca em devaneios exagerados. Mas se tiver esse tempo de sobra, devo criar meu próprio tempo. Sem agendas. Sem horários. Apenas possuir o comando de minhas ações.

Apenas deixar que o romance domine meu tempo e que as outras tarefas sejam mecânicas.

Apenas viver outras vidas fora de meu casco resignado.

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 13:11:37

22.09.06

Uma História de Amor

 

Enquanto tento escrever um romance imagino uma história de amor. Aumento o volume do som do computador e me deixo levar por Burt Bacharach. Os apaixonados escutam bacharach e sorriem. Como é lívido o amor nas tardes de sábado antes da noite bêbada que vem se aproximando. Como é tênue a felicidade na adolescência, no ardor do rosto, na leveza da palavra dita no ouvido num intervalo da sala de aula.

Mas depois o amor cresce e o mundo vem consumir a ingenuidade dos bem-nascidos. Sim, pois na periferia o amor nasce cedo. Nasce na necessidade da união. Na necessidade de se fazer algo entre a aula de natação que não se tem e o jogo de computador que não se jogou. Na periferia a paixão floresce livre, assim como a desilusão e a tristeza. Assim como a felicidade mais simples e a esperança.

Já no centro do universo, entre os que têm algo na barriga e acúmulo de necessidades na mente, viceja o amor medroso. O amor covarde. O amor egoísta. Pois é o amor, mesmo na periferia, uma união de egoísmos. Uma união de medos. União de esperanças perdidas.

Imagino uma história de amor não como imaginam os poetas de auto-ajuda. Não imagino o amor como um casal que discute a relação. Não enxergo o amor como o medo da solidão ou a fuga dos sonhos de infância. Nada disso para mim se aproxima do amor. O amor em estado puro é o amor à vida.

O amor à vida é antes de tudo o amor à liberdade. É o amor aos sonhos. É o amor que corre atrás de outro amor. É a união de sonhos. União de delírios. É a sabedoria que a solidão só existe para os incrédulos. Que a imaginação, a alma irmã da paixão, mata nossos medos e que se quisermos seremos o que quisermos, mesmo na periferia como no centro. Independente da situação social que influencie as decisões pessoais e interfira na personalidade e nos desejos, nascemos e morremos livres, disse algum dia um bêbado lúcido, que, por sinal, nunca está sozinho em sua infância eterna.

O amor não é somente a história de amor ou sexo entre dois seres humanos. O amor é como a música que flutua solta pelo ar buscando apenas os ouvidos que lhe toquem. É a luz do sol buscando os olhos que a ilumine melhor. O amor é o vento procurando a pele que o refresque melhor. É o cheiro de relva úmida nos nariz que a respire melhor. O amor é a palavra aconchegada na boca que a expresse melhor.

Independente do leitor, um bom romance sempre é uma história de amor.

 

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 23:04:52

21.09.06

Aonde?

 

Onde seria o cenário principal de meu romance? Poderia estar pensando em personagens. Mas prefiro me prender no local das ações. Para mim seria, e é, bem mais fácil escrever uma história que se passe em Porto Alegre. São mais de trinta anos na mesma cidade E, mesmo gostando dessa cidade com todas as suas imperfeições, mesmo gostando das imperfeições, não a conheço de todo. São tantos os cantos, as ruas, as praças, até mesmo os bairros que desconheço, que poderia ficar mais trintas anos desvendando a cidade.

Ou localizaria a história em uma cidade fictícia, mas não de interior. É, e eu admito publicamente, difícil para mim escrever uma história que se passe numa cidade pequena ou no meio rural. Talvez um dia consiga, mas não agora. Como também não é compreensível que recaia em escrever sobre as lidas do campo como dizem cá nos pagos. Seria estúpido e mesmo falso sair escrevendo sobre um pampa glorioso que só existe nas mentes obtusas e parnasianas de certos grupelhos, cada vez maiores, infelizmente, intelectuais que defendem as tradições que se existiram algum dia jamais tiveram a magnitude que tais intelectuais apregoam.

Riscando o pampa imaginário, me fogem também as cidades ditas européias do Rio Grande. Pois aí se encontra outra espécie de romance muito querido aos olhos de eurocentristas gaúchos. Muitos escritores que encontram seus nichos, mesmo no sentido publicitário da palavra, em certos grupos étnicos de descendentes de imigrantes europeus. Não. Também eu tenho em minhas entranhas correndo sangue de várias origens, e mesmo respeitando cada uma delas, não me classificaria especifiamente dentro de nenhuma.

Como também, se escrevesse uma história, digamos, porto-alegrense, não me perderia nos estereótipos da cidade em que nasci. Os porto-alegrenses natos se diferenciam dos vindos de outras cidades, sendo muito comum perguntar-se em Porto Alegre de onde veio tal pessoa, justo que sendo uma cidade nova, pouco mais de duzentos anos, não ter uma casta nativa muito específica. Mesmo para os brasileiros de outros estados soa estranho o sotaque porto-alegrense, justo que, diferente do sotaque gaúcho cantado e folclorizado pelo resto do Brasil, o sotaque porto-alegrense é mais arrastado, as vogais mais longas e ao mesmo tempo as frases e as palavras são esquartejadas com muito mais frequência.

Bom, antes que ue me perca na linguagem do local, uma cidade fictícia pode se enquadrar numa história realista ou numa história fantástica. ambos os termos, realista e fantástica, são abominados por grande parte dos escritores. Em verdade por se tratarem em grande parte as histórias realistas de transcrições de egocentrismos exacerbados escritas na primeira pessoa. E as histórias fantásticas em metaforizações da vida real em mundo supostamente absurdo e engraçadinho. O engraçadinho faz parte da cultura contemporânea, logo, já está incluído na mente do leitor quando ele lê uma história classificada como fantástica. O autor, em sua nobreza, diria que tudo não passa de nonsense.

Ou, como pode acontecer, e inevitavelmente acontece, o leitor dramatiza demais as histórias, tanto as realistas quanto as fantásticas, e dá a elas proporções que não possuem. Daí para virarem objetos de culto, e portanto de auto-ajuda, vai um passo do tamanho que existe entre a cama e o chão. Com a diferença que neste caso quem dá o passo é um sonâmbulo.

Talvez meu romance se localize quase que totalmente em Porto Alegre.

Talvez.

Afinal, ainda estou tentando escrever.

 

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 16:22:45

19.09.06

O Vício

 

Quem escreve como profissão, digo, quem é pago para escrever, talvez conte que escrever é um processo. Que o escritor precisa se organizar, preparar o texto, fazer um organograma da história a ser contada, estabelecer personagens, lugares, etc. Pode ser que tudo isso daí funcione. Mas não comigo.

Escrever para mim é uma necessidade fisiológica. É como tomar café todos os dias. É como o cigarro do fumante. Ficar preso pelo tempo e impedido de escrever é como ser um fumante num enorme edifício público onde é proibido fumar. A ansiedade toma conta do corpo. Então quando surge a oportunidade, ou mesmo quando crio a oportunidade do nada, eu escrevo. E daí a escrita vem como a primeira cerveja gelada depois de um dia de trabalho no sol, caminhando, suado e ela abre todos os poros e o corpo é tomado por uma corrente elétrica que vai até o dedão do pé.

O elemento químico desse vício vai contaminando tudo na minha volta. Logo estou escrevendo sem escrever. Estou falando sem parar para esquecer que tenho que escrever. Tenho que controlar as histórias para que elas não fujam. Para que elas não se diluam na vida cotidiana e a vida se confunda com a ficção. Alguma química cerebral me impede de controlar o impulso de contar histórias. Então destrambelho. E falo quando não tenho que trabalhar sob pressão, o que, pra mim, é o melhor trabalho de todos.

Mas, ao mesmo tempo, o tempo de escrever quando surge é lento. Ele é feito de caminhadas sem rumo. De desligamento do mundo exterior. De horas de contemplação alienada das paisagens. De andar olhando pro alto dos prédios. De sair de carro dirigindo e não prestar atenção para onde se vai. E, agora, de ficar sozinho com o filho e não falar coisa com coisa com ele, afinal ele entende mais do que eu estou falando do que eu entendo ele com seus quatro meses e meio de idade.

O tempo de escrever contos já é demasiado alienado, entrecortado por sessões de música alta nos fones de ouvido. De sono cancelado. De fome espreitando. O tempo de escrever um romance, não sei, talvez seja o tempo da vida. Da vida que ainda não tenho completa, pois afinal tenho contas e gosto do conforto e admiro a preguiça. O tempo do romance talvez seja o tempo da perdição. O tempo da liberdade. Talvez seja, para mim, o resto da vida, que espero seja o suficiente para que eu possa escrever e viver, pois a escrita não existe sem a vivência. Ou, perdoem-me os estudiosos, existe. Mas que deve ser um tédio, isso deve.

 

  • criado por  mutante.voy criado por mutante.voy
  • Postado em 17:44:47