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... o Lorenzo ( http://cervejaefralda.blog.terra.com.br ) deixa, eu escrevo. Mas nas últimas semanas tenho escrito mentalmente. Recontando o que imaginei. Escrever não é simplesmente jogar na tela e no papel. Essa é a parte final. Escrever vem antes. Muito antes. Praticamente desde que nascemos. Logo, não acredito em quem diz que parou de escrever ou que teve um branco criativo. É a diferença que existe em quem sabe escrever bem e quem é um escritor. Necessariamente quem sabe escrever bem não é um escritor. Pode ser só um redator. Um escritor envolve muito mais. Envolve a alma. E não existe escritor sem alma.
De jeito nenhum.
Queria escrever um romance que mantivesse o equilíbrio entre o racional e o emocional. Que a história tivesse a simplicidade das grandes histórias, dos amores perdidos, das perdas sofridas, das desgraças alheias, das pequenas comédias diárias. Mas que ao mesmo tempo construísse um imaginário na mente do leitor que nascesse da razão intuitiva do autor. Que o autor não descambasse para a poesia de auto-ajuda ou o a literatura esotérica, pragas tão comuns na literatura contemporânea.
Quando falo em emocional, falo em entrega. Falo como dizia Tim Maia. Não se pode escrever sobre dor de cotovelo sem nunca ter sofrido um revés amoroso. O autor tem que estar entregue junto na embalagem do livro. Sua alma, que não precisa necessariamente sua, pode ser roubada, mas que será a sua vivendo na pele de outro seus próprios dilemas. Ou será o autor vivendo dilemas que não os dele, mas carregando dentro desses tramas os seus próprios medos e desejos mais secretos. Será um ator o autor. Mas um autor que constrói dentro de seu próprio espectro as vidas interiores de seus personagens. Dentro dessa incorporação o autor se entrega como se entrega o bom ator em um palco ou atrás das telas. Além da personagem ou da trama, está ali o espelho da alma do intérprete. Mas só que essa alma não deve ser completa. Deve ser um pedaço. Um detalhe. Mais que uma entrega, é uma troca. O autor entrega sua alma para receber dos leitores seus sonhos e capturar seus desejos mais íntimos. Essa simbiose se materializa no ser híbrido chamado livro.
Porém tudo deve ser entrelaçado pela simplicidade no vocabulário e na beleza da forma. Tal qual música, poucas notas são necessárias para que se crie a beleza plástica. Assim como as cores básicas se misturam e formam as mais variadas imagens na mente de artistas livres de espírito. A beleza da forma nasce na subjetividade. No delírio da contemplação dos objetos. Na racionalização dos sentimentos mais primários e humanos. Já a simplicidade do vocabulário se adquire ao saber o autor usar da complexidade da língua para dizer em poucas palavras o que um intelectual, que me desculpem os próprios, inclusive posso ser um deles, mas são uns chatos, levaria aludas e laudas de nosso santo saco para descrever em minúcias sapienciais e estúpidas. Não prego aqui uma diminuição do estudo, da leitura ou da linguagem. Não! Mas existe muito mais complexidade em ser direto e simples e ao mesmo tempo belo e único. A imaginação é uma ciência que se pratica pelo desligamento de nosso aprendizado adquirido depois do nascimento aliado ao próprio conhecimento conquistado pela vivência e convivência.
Paradoxal?
Sim. E não. Como a própria resposta que acabo de fornecer para minhas próprias dúvidas. Como o autor sentado em um banco de praça fumando um cigarro e observando a vida alheia passando pela sua frente e em certo momento enxergar ele mesmo passando. Ele apaga o cigarro e ele mesmo acende outro na sua frente. O espelho de sua alma e de seu mundo refletidos nos espelhos dos olhos de seus leitores. Todos unidos pelo estranhamento da existência. Pelo prazer da vida. Por medos seculares. Unidos pela imaginação transposta em pequenos caracteres que dançam e tocam a música inaudita da literatura.
A música que para escutar basta apenas ficarmos em silêncio.
E sorrirmos.
Um argumento nasce para mim basicamente do nada. Mas esse nada é tudo. As associações de idéias vão se formando ao longo dos anos em minha rede de neurônios até que um último estalo faz com que todas transbordem juntas e seja impossível controlar o desenrolar da história que escreverei.
Poderia dizer que funciona como a fermentação da cerveja. Ou como o envelhecimento do vinho no barril. Algumas vezes acontece assim. Mas na maioria das vezes, e quando eu realmente me sinto livre e pleno acontece como a construção de uma barragem.
Um romance que valha a pena ser escrito, lido e relido funciona assim mesmo. Ao longo do tempo a barragem é construída, o rio vai sendo nivelado e depois fecham-se e abrem-se as comportas de acordo com a necessidade de geração de energia. O romance é então o lago que se forma e que por muito e muito tempo vai iluminar centenas, milhares de casas. Quanto ao argumento do romance que escrevo agora, a barragem já foi construída e agora resta deixar que o lago se forme.
Admito que não consigo transpor esta idéia de romance em algum esquema compreensível para outras pessoas. Algumas vezes já tentei e me parece bem mais plausível, para meus interesses em publicá-lo e para a compreensão de meu primeiro público-alvo, o editor, que sua primeira leitura seja feita apensa depois de pronto e devidamente revisado, visto a desordem mental que me toma quando escrevo destrambelhadamente como é o costume.
Mesmo tentei participar de concurso e óbvio que foi um desastre. Não tenho a mínima condição de ordenar o argumento como se fosse um organograma para um bando de burocratas literários. Aliás, considero que basta ler o que alguém escreve para saber se o tal tem condições de ser um bom escritor. Como fazia um antigo olheiro de futebol. Jogava a bola rente ao chão e gritava “cabeceia!” Se o sujeitinho se jogasse no chão, pode largar, não joga nada. E, pra ser bem sincero, tem muita gente cabeceando no chão por aí.
Queria eu escrever um romance como A Rua das Ilusões Perdidas, de Steinbeck, ou um Enquanto Agonizo, de Faulkner. Não gosto de escritores em particular, mas de livros. Tanto que para mim um escritor que escreve um livro que eu releia várias vezes e escreva cem porcarias, eu vou considerá-lo sempre pelo livro bom. Tanto que nem gosto de Hemingway, acho enfadonho e exibicionista. Mas O Velho e o Mar é um clássico, claro. Assim como não tenho medo de dizer que Fausto Wolff funciona como Lou Reed e Bukowski funciona como Ramones. Ambos praticamente escrevem sempre a mesma história só que, como Lou ou os Ramones, fazem essa repetição com extrema imaginação e competência.
Terminando, e nem estou mais falando de argumento e sim de referência,s que também acabam influenciando a história, adoro best sellers desconsiderados péla intectualidade tacanha. Livros rápidos e rasteiro como O Veredito, de Barry Reed, ou ou qualquer um do Elmore Leonard. Ou livros de piratas. Sempre eles.
Um pirata deve ser divertido. Não ter respeito por nada e nem por ninguém. Um pirata não tem regras. Um bom romance é como um bom pirata. Um bom romance começa como a empreitada de um navio pirata. Navega solitário e captura o que aparecer pela sua frente. Um bom romance navega pelas lendas alheias. Um grande romance é um ladrão por natureza. Segue apenas o rumo do horizonte e não segue curso nenhum.
Nem mesmo o curso de seu autor.
Antigamente alguns poucos homens tinham a habilidade e os meios para escrever e, dentre estes, menos ainda eram os que escreviam ficção. Obviamente o ato de escrever era restrito a certos ambientes e muitas vezes, ao contrário do que se pode pensar hoje, os escribas eram relegados a castas inferiores da sociedade. A escassez de meios tanto nos salvou de que maus escritores tivessem oportunidade como também nos privou de conhecer histórias de mentes imaginativas que não possuiam os meios ou a habilidade para transpor a história em palavra escrita.
Ainda sem o advento da tipografia, e mesmo sem essa, quase nada foi alterado até a popularização da máquina de escrever, autores como Maquiavel, posicionavam-se de pé para escrever em um móvel adequado com seus bicos de penas, tinta e outros apetrechos, alguns dos quais utilizou Sade, por exemplo. Se o ambiente quase sempre se restringia a escrever em uma sala arejada, pela manhã, de pé ou sentado, ou à noite, sob a luz de velas, o combustível do escritor foi sendo alterado com o tempo. Balzac escrevia abaixo de litros de café. Baudelaire e muitos de seus contemporâneos, dos quais destaco Teophile Gaultier, alimentados por muito vinho e haxixe. Que, óbvio, tais substâncias exerceram influência na escrita, isso exerceram. Mas como afirmou certa vez o próprio Baudelaire, “um idiota drogado é apenas mais um idiota”, de tal maneira que não é a substância que faz a história, mas sim o escritor que liberta partes de sua mente aprisionadas pela consciência opressiva.
Já no século 20 o alcoolismo transformou-se no lugar comum de muitos escritores. Tanto que julgaram muitos bêbado acharem que bastava encher a cara para ser um gênio. Óbvio que não. Mas mesmo assim muitos cachaceiros nos premiaram com suas obras escritas sob efeitos de bebedeiras, tais como Faulkner, que também escrevia alucinadamente roteiros para Hollywood, Simenon, que se trancava no quarto, sozinho, junto com algumas garrafas de vinho, e Jack London, que li só um livro mas já foi o suficiente para incluí-lo nessa pequena lista. Muitos outros encheram o saco com suas bebedeiras, mas o melhor é nem citá-los.
Mario Puzo é o escritor que em seus relatos mais se aproxima do que vivo nos dias de hoje enquanto tento escrever um romance. Diz ele que escrevia com o baruilho das crianças por perto, a mulher incomodando com os problemas domésticos e os pensamentos sempre divididos em escrever e resolver seus problemas financeiros. Mais adiante, ele revela que seus momentos de inspiração vinham entre as gondôlas do supermercado quando acompanha sua mulher nas compras. Ou então quando ia apostar nas corridas de cavalos.
Eu, cá no meu canto, necessito muitas vezes de café forte e com açúcar, outras vezes, de um cerveja gelada, um gim, uma cuba ou mesmo vinho tinto seco. Nada que me embebede, pois bêbado me transformo em poeta e certamente não escreverei um romance. Também o silêncio muitas vezes se faz necessário, mas o barulho de televisão em algum canal que passe filmes de péssima qualidade ou escutando um tipo de música adequeado ao texto que pretendo fazer, também me satisfazem. Se no conto posso delirar escutando Black Sabbath ou Beethoven, já no romance que tento escrever estou me resguardando de sons mais violentos e aprendendo a escutar Dvorak, T. Rex ou mesmo, acredite, George Harrison. Não que esteja virando um erudito ou um riponga. Vez em quando me alieno e coloco várias músicas aceleradas para divagar entre um parágrafo e outro. A música é uma grande aliada em minhas divagações mentais para compor uma história. Assim como caminhar sem compromisso. Ou dirigir pelas ruas vazias na madrugada.
Já as interrupções para conversações me atrapalham e muito. Não muitas vezes sou indócil e até mesmo agressivo com os que convivem no mesmo ambiente onde estou escrevendo. Outras vezes sou mesmo é alienado ao ponto de deixar extremamente irritados os circundantes com minha falta de atenção.
O calor extremo ou o frio também são interferências externas que me incomodam, mas o bom mesmo é não ter uma geladeira farta ou uma cama confortável por perto. A preguiça e a sobra de tempo podem ser inimigas do escritor. Preciso ter o tempo exíguo para que não o perca em devaneios exagerados. Mas se tiver esse tempo de sobra, devo criar meu próprio tempo. Sem agendas. Sem horários. Apenas possuir o comando de minhas ações.
Apenas deixar que o romance domine meu tempo e que as outras tarefas sejam mecânicas.
Apenas viver outras vidas fora de meu casco resignado.
Enquanto tento escrever um romance imagino uma história de amor. Aumento o volume do som do computador e me deixo levar por Burt Bacharach. Os apaixonados escutam bacharach e sorriem. Como é lívido o amor nas tardes de sábado antes da noite bêbada que vem se aproximando. Como é tênue a felicidade na adolescência, no ardor do rosto, na leveza da palavra dita no ouvido num intervalo da sala de aula.
Mas depois o amor cresce e o mundo vem consumir a ingenuidade dos bem-nascidos. Sim, pois na periferia o amor nasce cedo. Nasce na necessidade da união. Na necessidade de se fazer algo entre a aula de natação que não se tem e o jogo de computador que não se jogou. Na periferia a paixão floresce livre, assim como a desilusão e a tristeza. Assim como a felicidade mais simples e a esperança.
Já no centro do universo, entre os que têm algo na barriga e acúmulo de necessidades na mente, viceja o amor medroso. O amor covarde. O amor egoísta. Pois é o amor, mesmo na periferia, uma união de egoísmos. Uma união de medos. União de esperanças perdidas.
Imagino uma história de amor não como imaginam os poetas de auto-ajuda. Não imagino o amor como um casal que discute a relação. Não enxergo o amor como o medo da solidão ou a fuga dos sonhos de infância. Nada disso para mim se aproxima do amor. O amor em estado puro é o amor à vida.
O amor à vida é antes de tudo o amor à liberdade. É o amor aos sonhos. É o amor que corre atrás de outro amor. É a união de sonhos. União de delírios. É a sabedoria que a solidão só existe para os incrédulos. Que a imaginação, a alma irmã da paixão, mata nossos medos e que se quisermos seremos o que quisermos, mesmo na periferia como no centro. Independente da situação social que influencie as decisões pessoais e interfira na personalidade e nos desejos, nascemos e morremos livres, disse algum dia um bêbado lúcido, que, por sinal, nunca está sozinho em sua infância eterna.
O amor não é somente a história de amor ou sexo entre dois seres humanos. O amor é como a música que flutua solta pelo ar buscando apenas os ouvidos que lhe toquem. É a luz do sol buscando os olhos que a ilumine melhor. O amor é o vento procurando a pele que o refresque melhor. É o cheiro de relva úmida nos nariz que a respire melhor. O amor é a palavra aconchegada na boca que a expresse melhor.
Independente do leitor, um bom romance sempre é uma história de amor.